segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Meu pai me envia quase diariamente imagens e vídeos que ele acha na Internet. A Internet para ele é o Facebook e o Whatsapp, onde ele mantém contato com parentes e amigos e até pessoas que ele nunca viu, no caso do Facebook, mas que compartilham coisas que ele acha interessantes, como fotos de orquídeas, tudo relacionado ao Fluminense, imagens antiPT e vídeos de passarinhos joão-de-barro construindo suas casas.

Meu pai parece gostar especialmente de vídeos e fotos de passarinhos joão-de-barro construindo suas casas, porque ele compartilha muitos desses, muitos mesmo. Me lembro de quando eu era criança e achava esse passarinho um ser fantástico, e de ler tudo que caísse nas minhas mãos sobre ele. Me lembro, então, que minha vó era fascinada pelo joão-de-barro, e foi através dela que eu descobri que ele existia. Passei muitos anos sem pensar nesse passarinho e seu ninho, que era uma casa, até que recentemente me lembrei que ele existia, por causa dos vídeos e fotos que meu pai compartilha.

Me lembro do joão-de-barro, me lembro da minha avó e penso no meu pai.

Me pergunto se ele, como eu, consegue ver de onde vem tanto interesse por um passarinho que constrói um ninho de barro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

É química e eu sei que é química. Existe uma explicação científica para o amor. Eu sei, mesmo tendo tirado 0,28 no vestibular há 16 anos, mesmo tendo tirado essa nota usando regra de três, sem ter usado qualquer fórmula ou qualquer coisa que faça sentido dentro da química. Eu sei, é oxitocina. É endorfina. É dopamina. Eu sei que o amor é explicado por um fluxo de substâncias químicas num corpo.

A ciência explica que o amor é o resultado de um processo de condicionamento do cérebro. O vício em cocaína também. Essa sensação de que você esteve aqui o tempo todo e de que você nunca vai embora. É química. Eu sei e você sabe.

Todos os poemas de amor: química. Todas as músicas: química. Aquele som que você faz quando acorda: química. Eu levantando da cama porque você levantou quando na verdade eu queria continuar dormindo: química. Você lendo jornal do meu lado no domingo: química. Minhas bochechas queimando: química. Eu contando minutos: química. Você passando manteiga no meu pão de manhã: química. Você colocando um disco pra tocar: química.

Mas pensa na coincidência.


Que eu exista e você exista ao mesmo tempo no mundo. Que você tenha passado por mim ou eu por você, a gente não sabe bem. Que você tenha uma foto de perfil olhando para cima no Mosteiro dos Jerónimos igual a minha. Que você tenha me feito rir no mesmo dia que eu te fiz rir.

É química. Mas pensa.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Dentre todos os barulhos que o ser humano é capaz de produzir, talvez o que eu mais odeio seja aquele da língua com os dentes. Sabe, shlept shlept? Chego a fechar os olhos de tão incomodada.

Durante um semestre há alguns anos, tive uma aluna que fazia isso durante toda a aula. A turma dela tinha 3 horas de aula aos sábados e durante essas três horas eu escutava shlept shlept. Ela sentava na fileira da frente e eu não tinha para onde fugir. Para a esquerda, para a direita, o shlept shlept ia comigo.

Aquilo me incomodava tanto que muitas vezes estive a ponto de pedir que ela parasse. Sabe esse barulho que você faz com a língua e os dentes? Não faça, por favor, está me matando aos poucos. Está corroendo alguma coisa dentro de mim. Incontáveis vezes. Escolhi palavras, ensaiei, abri a boca várias vezes com a intenção. E desisti.

Mais inapropriado do que o shlept shlept era eu tentar corrigir o comportamento de uma adulta que só me pediu pra ensinar inglês.

Sempre me lembro disso, me lembro cada vez mais. Toda vez que estou a ponto de. E me lembro que se fui capaz de sobreviver àquelas tardes de sábado de 2009.2 também sou capaz agora.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Na rua do M. tem um boteco. Todo fim de semana a gente passa pelo boteco pra ir a algum lugar. Padaria. Supermercado. Pegar um táxi. Padaria hipster que não tem lugar pra sentar. Cinema.

Todo fim de semana estão lá no boteco as mesmas pessoas jogando dominó. Tem sempre um cara sentado sozinho com uma cachorrinha. Toda vez que a gente passa por lá a gente fala com ela.

Outro dia a gente foi jantar, a cachorrinha estava de manta. Tava super frio no Rio. Menos de 20ºC, eu sinceramente não aguento esse frio. Bom, aí a cachorrinha estava lá, coberta com uma mantinha. Vou te dizer que a única coisa que me deixa feliz no frio é ver cachorro de roupinha. Daí eu quase chorei de tão linda que tava a cachorrinha de manta. Na volta do jantar, a gente parou pra falar com um amigo que tava no boteco e aí eu percebi que o dono da cachorrinha odeia a gente. Eu não sei por que, mas ficou claro que ele detesta que a gente fale com a cachorrinha de manta (provavelmente ele detesta que a gente fale com a cachorrinha sem manta também).



Eu só preciso que todo mundo entenda que: se você tem um cachorro, eu vou falar com ele. Se você tem um cachorro, ele é meu amigo. Meu amigão. Aceite.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Sozinha na sua casa, fui lavar a louça. Era a primeira vez, você sempre dizendo que não precisava quando eu me oferecia. Três pratos, duas taças, dois garfos, três facas do jantar, um prato de sobremesa, uma colher de café, uma caneca, uma faca do meu café da manhã. Você tinha saído bem cedo para pegar um voo. Deixou a cafeteira pronta, era só apertar os botões na ordem certa. Na mesa a caneca escolhida já, todo dia uma diferente.

Não tinha reparado quando te vi lavar a louça, mas você tem duas esponjas na pia. Um sistema para lavar pratos e copos, com certeza. Como eu. Eu pensei em como eu amo você, suas esponjas para lavar a louça, eu e você contra a gordura em copos e taças. Não sabia qual era o seu sistema, mas apostei que a esponja amarela era a dos pratos e talheres, a azul dos copos e taças.

Quando você voltou de viagem eu perguntei. Acertei o seu sistema.


na minha casa, azul para pratos e talheres, rosa para copos e taças.

Minha mãe, 22:45, vídeo por whatsapp do meu primo de 1 ano e 9 meses.
Ele com um celular na mão, um app ensinando as letras do alfabeto em inglês.
As letras passam, o app fala a letra, ele repete.

Minha mãe quer saber se ele fala direitinho.

Uma questão urgente.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

O blog tá assim já tem um tempo. Vai-não-vai. Às vezes tem post, na maior parte das vezes não. Mas resistimos.

Esta semana entrou no ar o Central do Textão, nossa resistência, nossa passagem de volta aos blogs.

Tem um link permanente aqui do lado. Clica pra ver o tanto de blog legal que ainda existe e quer continuar existindo fora das redes sociais.

Central do Textão

terça-feira, 17 de maio de 2016

Uma dor de cabeça que pede aspirina junto com o café.
Mil lencinhos de papel durante o dia.
Um poema da Adélia Prado.
Um choro em público.
Um email que diz "estou aqui."
Um vinho mais caro do que o planejado.
Lugar para sentar no trem.
Uma notícia boa por whatsapp.
As flores são a primeira coisa que eu vejo quando entro.
Um hambúrguer no jantar.
O ecocardiograma da Hannah diz que ela pode fazer a cirurgia.
Quebro meu vaso preferido. Um dos meus vasos preferidos.
A rolha quebrada na garrafa.
Vinho respingando em todos os armários da cozinha.
Eu limpo correndo, sou a minha mãe.
Três taças.
Quatro cigarros na janela vendo a rua.
Emojis de coração.
Aimee Mann. Ney Matogrosso. Cat Power.



Divago, quando o que quero é só dizer te amo.