domingo, 28 de setembro de 2014

Eu não vou ao cinema. Eu não vejo filmes. Eu não vou ao cinema porque eu não vejo filmes, isso tem anos já. Eu vejo pouquíssimos filmes. Eu não tenho paciência, eu me distraio facilmente.

Eu estou namorando - e ridiculamente apaixonada - por um homem que trabalha com cinema. Que escreve roteiros. Que dirige documentários. Os documentários passam no cinema. Ele ama filmes, ele ama ir ao cinema. Às vezes eu tô já achando que vou só tomar banho e dormir e ele diz "vamos ver um filminho?" E eu sei que ver um filminho é ir ao cinema.

Então eu tenho ido ao cinema. Não é uma coisa que me ofende, só me dá preguiça, então eu vou. Chegando na bilheteria ele diz que eu posso escolher os lugares. Eu posso escolher os lugares que eu quiser. Já passamos por isso escolhendo o filme. Eu nunca tenho ideia do que eu quero assistir. Eu posso escolher o filme. Agora eu posso escolher os lugares. Eu digo que não faço ideia de como escolher lugares bons no cinema. Eu não vou ao cinema. Ele diz que não se importa.

Eu escolho os lugares.

E ele faz uma cara de pavor.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Logo de manhã eu descobri que minha mãe havia curtido fotos da filha dele no Facebook. Minha mãe. Curtiu. Fotos. Da filha dele. No Facebook. Dele. Perfil que eu nunca mostrei e que nem tenho na lista de amigos. Perfil que ela descobriu sem que eu dissesse o sobrenome.

Como eu descobri? Ele me contou.

-Mããããeee, você curtiu fotos da filha dele no Facebook. Peloamordedeus, mãe, que loucura é essa? Nem o sobrenome dele eu te disse, mãe!
-kkkkkkk Ai, filha, achei o documentário que ele dirigiu e vi a foto dele, ele tem uma carinha tão simpática e é tão bonitinho, não resisti. Aí eu vi a filha dele, é uma princesa linda. Se curti, foi sem querer. kkkkkkkk

Se curti, foi sem querer.

E eu cheguei a me perguntar por que não apresento ninguém para a minha família desde 2007.

Se não apresentei, foi sem querer. Ou pra não ter que lidar com essa situação às 9:30 de uma terça-feira.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Minha família inteira quando eu anunciei, no almoço de domingo, que queria apresentar um na-mo-ra-do a eles:

[APLAUSOS]
-EEEEEEEEEEEEE
-EEEEEEEEEEEEE
-EEEEEEEEEEEEE

E depois fizeram perguntas como:
1. Ele torce pra algum time? Qual?
2. Ele sabe cozinhar?

(sabe sim e faz panqueca pra mim de manhã. em dia de semana, antes do trabalho)

domingo, 31 de agosto de 2014

Ainda no assunto banheiros em começo de relacionamento: tenho lavado meu cabelo com o que, obviamente, é um xampu deixado pela ex.

Não é da filha, que usa xampu infantil, não é dele, que não tem cabelo - e usa xampu anticaspa.

É o xampudaex. Tá lá no banheiro, eu usei, tem um restinho só.

Daí o que aconteceu: eu gostei tanto do xampudaex, ele foi tão bom pro meu cabelo, que eu fui lá e comprei igual e agora tem xampudaex no meu banheiro também.

Espero que ele não tenha memórias ruins ligadas a perfume de blueberry.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fico pensando o que seria de nós, o que seria de mim, sem a capacidade de pensar "desta vez vai ser diferente." Nem levantava da cama, acho. Estou exagerando. Mas, sério,
...
Li uma vez que a diferença entre um comportamento assustador e um comportamento fofo é o quanto a gente gosta da outra pessoa. Eu incluiria aí, além de assustador, ridículo/idiota. Mas isso é só pra justificar o meu coração quentinho com a cara que ele fez quando eu expliquei que, olha, o lugar pra onde eu quero ir já passou, eu só não queria largar a sua mão.
...
Nada, nada mesmo faz sentido.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma certeza que você pode ter na primeira vez na casa de um homem: no chuveiro dele há um frasco de shampoo anticaspa. Você não sabe se ele arrumou a cama antes de sair de casa, se usa as mesmas toalhas de banho há anos, se não tem taças de vinho, se ele tem uma vitrola. Não importa: ele tem um shampoo anticaspa no banheiro.

Essa é uma certeza que eu carrego comigo há anos junto com o desespero de ir tomar banho num banheiro que não tem shampoo e condicionador adequados para o meu tipo de cabelo.  Queridos, eu preciso de hidratação.

É uma regra tão forte, mas tão forte que, entrando no banheiro de um homem careca, nos encontramos de novo. Lá estava ele, o shampoo anticaspa.

Não falha nunca.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

eu sei que dia é hoje

Eu achei que nunca aconteceria. Eu achei que ia explodir em mil pedaços bem pequenininhos. Eu achei que ia evaporar. Eu achei que ia derreter. Eu achei que ia virar pedra. Eu achei que nunca aconteceria. Eu achei que nunca mais te veria. Eu torci para te ver, eu torci para nunca acontecer, nunca mais.

Eu desejei que as suas samambaias secassem, que sua cerveja esquentasse, que sua caipirinha viesse sem açúcar. Quando eu passasse por você de cara alegre e cruel. Você nem ia me reconhecer. Já ia me encontrar refeita. Tantos homens etc. Eu achei que teria coisas a dizer. Eu achei que nunca aconteceria.

Eu olhei para você três vezes. Na primeira eu olhei para você e fugi pra um lugar dentro de mim onde só são repetidas as cenas que me explicam por que não, que me garantem que, não, eu não posso olhar para você. Eu olhei uma vez só e esperei você ir embora, sumir da minha frente de novo. Você ficou. Eu senti muito frio.

A segunda vez que eu olhei para você foi um acidente, eu achei que você não estava mais ali. Eu entendi errado o que me disseram. Eu olhei para você. Eu explodi em mil pedaços bem pequenininhos. Eu evaporei. Eu derreti. Eu virei pedra. A minha mão nunca mais tocou a sua.

Na última vez que eu olhei para você foi indo embora. Eu olhei para você pela última vez, repetindo que não e por que não. Eu sei por que não, soube tantas vezes e mesmo assim eu fiquei. Até que eu entendi que de você não consigo ter só um pouco. Você estava certo. Aquele sei-lá-o-quê-que-nos-aproxima, que eu desastradamente chamei de amor. Eu olhei para você.

Eu ouvi a sua voz e senti uma saudade infinita. Você nunca mais me abraçou.