terça-feira, 12 de maio de 2015

Love the only way I know how

Enquanto eu procuro em outro lugar o que eu sentia com você, fico tentando identificar o que era. A gente tentou não dar nome, você tentou, eu também, a gente tentou não dar nome, dizer que não tinha nome o que era tão nosso. Teve aquela vez em que você tentou usar a palavra empatia. Aliás, fuck you for that. Aquilo que não tinha nome. Um quase que não dava tempo de fechar a porta. Aquilo que era, mais do que tudo, uma urgência. Para mim, uma urgência.

Eu me pergunto se vou encontrar essa urgência de novo na vida. Talvez não. Pensar que ela talvez só exista com você é tão cruel, porque pra você eu nunca mais vou voltar, nada faz mais sentido do que isso. Mas talvez ela só exista com você. Nunca foi tão urgente querer alguém.

Um coração mergulhado no azul. O meu, como o seu.

You bring out the Mexican in me.
The hunkered thick dark spiral.
The core of a heart howl.
The bitter bile.
The tequila lágrimas on Saturday all
through next weekend Sunday.
You are the one I'd let go the other loves for,
surrender my one-woman house.
Allow you red wine in bed,
even with my vintage lace linens.
Maybe. Maybe.

For you.

do poema You Bring Out the Mexican in Me, Sandra Cisneros (minha poeta preferida)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Talvez eu tenha perdido o controle em algum momento, talvez eu tenha exagerado, não sei mesmo dizer o que houve, mas acontece que fiz as contas e há 17 tigelas na minha casa.

Continuo morando sozinha.

Bom, eu e as tigelas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O meu dia começou com um helicóptero sobrevoando a minha casa porque um trem descarrilou bem em frente. Já pronta pra sair eu descobri que minha calça tinha não apenas um, mas dois rasgos e tinha que ser trocada por outra o mais rápido possível. Fechando a porta, notei que combinei a cor do blazer com a do batom com a do esmalte, argh. Não tinha trem pra ir pro trabalho. Também não tinha ônibus, porque todas as pessoas saíram enlouquecidas atrás de um. E então no meio do dia eu perdi meu cartão do banco e para pedir que outro chegue na minha casa e não na agência eu preciso ir até uma agência, como uma neandertal, como se eu vivesse no século XX. A assistência técnica me explicou, assim sem tremer a voz nem nada, que o técnico não veio consertar o ar condicionado  no dia inteiro que eu fiquei esperando porque não achou vaga para estacionar na minha rua. A secretária do médico ligou para adiar a consulta e riu da minha cara quando eu expliquei que moro em Nova Iguaçu e nem pensar que vou até Copacabana num sábado só porque meu joelho sai do lugar às vezes. Nenhum caixa eletrônico funcionava sem cartão. No ônibus, a pessoa do meu lado achou que era uma boa ideia comer um cachorro-quente.

E foi assim que no fim do dia eu me vi abraçada a uma abóbora no supermercado. Eu e a abóbora. Até que uma pessoa ficou fazendo psiu, psiu, psiu pra mim. Pra mim e para a abóbora. E quando eu virei, era uma funcionária me perguntando se eu queria que ela cortasse a abóbora pra mim.
-Ah, você corta abóboras?

De alguma forma a minha reação fez sentido para ela, talvez ela já tenha tido muitos dias ruins e saiba que cara a gente faz ao final deles. Ela delicadamente tirou a abóbora de mim e me devolveu apenas metade dela, o que impediu que eu viesse para casa abraçada a uma abóbora inteira, que era o meu não-plano de quem não está pensando em nada além de "preciso de uma sopa".

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Eu estava mostrando o perfil de um cara num app de paquerinha. Ele tinha umas fotos bem malucas. Na descrição, muitas palavras em inglês, tipo experimental, art, terror, post-punk, gender.

Eu estava defendendo o argumento de que no Rio todo mundo é artista.

-Olha, esse homem não é hétero. Ele apareceu pra você por engano.
-Não, que isso? Nós demos match em dois aplicativos diferentes.
-Você tá dizendo que deu like nesse homem?

Mas é claro que dei. Se eu não der like nesse homem, como é que eu vou conseguir continuar solteira?
...
Estou lendo um memoir sobre viver como uma mulher solteira. Chama Spinster, da Kate Bolick e eu recomendo pra todo mundo que pensa "hmm, ainda não." =)

domingo, 12 de abril de 2015

Estação de trem de Nova Iguaçu, domingo: mulher na plataforma em frente pega um cigarro e começa a procurar alguma coisa na bolsa.

Homem na mesma plataforma que eu pula da plataforma, atravessa os trilhos com um isqueiro entre os dentes, sobe na outra plataforma e acende o cigarro da moça.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Meu irmão e eu sempre dividimos as coisas muito bem. Se tinha uma bandeja com quatro iogurtes, dois eram dele, dois meus. Se tinha dois bombons, um era dele, um meu. A gente nunca comia a comida do irmão, mesmo que o irmão demorasse pra comer. mesmo que o irmão guardasse o iogurte pra comer vagarosamente de colherzinha de café na sua frente, depois de você já ter comido o seu.

Corta para a gente adulto. Eu tenho 32 anos, meu irmão, 28. A gente nem mora mais na mesma casa. Meu irmão conta, num almoço de família, que foi na minha casa enquanto eu não estava, para deixar uma coisa para mim, a pedido da minha mãe.


-Aí tinha meio coelho de chocolate na mesa. E eu comi um pedaço.
...
Ano passado eu tava em casa, o interfone tocou, atendi, a pessoa disse só "oi!" e depois sumiu. Achei que tinha reconhecido a voz, liguei pro meu irmão.
-Rafael, foi você que tocou o interfone aqui de casa?
-Sim. Toquei a campainha e corri.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

estou ótima

Estou ótima. Estou ótima aqui com meus amigos e meus choppinhos. Estou ótima com meu emprego, estou ótima com minhas roupas novas. Estou ótima aqui com esse GI Joe dizendo "please, tell me if I'm too rough." Estou ótima porque ele não me conhece, não sabe que eu nunca vou dizer when. Estou ótima. Estou péssima. Estou péssima sonhando com a sua escova de dentes como se ela fosse minha, depois de tanto tempo. Péssima tendo que dizer "olha, você é legal e eu adoraria gostar de você, mas eu sinto falta de frio na barriga." Péssima pensando que você me escondeu quando devia ter escondido ela. Péssima porque eu sei que não teria feito diferença nenhuma. Estou ótima, comprei um monte de sapatos novos. Estou ótima, planejando minha próxima viagem. Estou ótima, comprando coisas pra minha casa. Estou péssima, a rolha quebrou bem no gargalho e eu tive que empurrar pra dentro com uma faca. Estou ótima, indo a vários shows. Estou péssima, não quero sair de casa.

Essa camiseta que não era minha e agora é. Vou dormir com ela, porque estou péssima, porque estou ótima.