domingo, 19 de julho de 2015

As pessoas me oferecem bebida e comida. Não parecem querer nada em troca. Dois homens no trem me ofereceram amendoim em dois dias diferentes. Num show, uma mulher chegou perto de mim e perguntou se eu bebia smirnoff. Disse que não bebo vodca, eu não bebo mais vodca, descobri outro dia. Só de ver a vodca caindo no copo meu estômago fica embrulhado, um arrepio de pavor. Eu costumava tomar pura, não tomo mais vodca. Eu disse que não bebo vodca, não disse todas as outras coisas, estômago embrulhado, 30 anos, arrepio, porque eram too much information.

Um homem parou perto de mim e quis fazer dois comentários. Um era que ele tava achando legal me ver sozinha no show, o outro é que ele nunca tinha visto uma fumante abanar a própria fumaça. Eu expliquei que não sou fumante, comecei a fumar porque as pessoas são chatas. As pessoas são chatas demais, então eu comecei a fumar em eventos sociais, porque as pessoas são chatas e odeiam fumantes. E que quando eu evoluir eu vou jogar a fumaça bem na cara das pessoas, pra elas deixarem de ser chatas, como são chatas, mas que por enquanto eu ainda fico abanando a minha própria fumaça. Não sei se ele entendeu minha proposta. Daí ele foi embora.

Roubaram meu anel no banheiro. Foi inacreditável. Eu estava usando dois anéis juntos, coloquei na pia para lavar as mãos. Não eram anéis de ouro, se fossem eu não os teria colocado na pia, teria lavado as mãos com eles. Um anel em cima do outro. Chegou uma mulher com muita pressa, puxando o papel com violência, eu esperei, sequei minhas mãos, olhei para baixo, só um anel. Achei queo outro tivesse caído no chão, na minha bolsa, no meu casaco. Não. Olhei o banheiro inteiro. Acho que roubaram, inacreditável.

Passei pelo homem de suéter de novo, ele me deu dois beijinhos e desejou sorte na vida. Disse assim mesmo, "boa sorte na vida, renata." Não entendi nada, mas agradeci. Que fora engraçado. Depois no bar ele apareceu de novo. Eu não devia fazer isso, mas vou ver se acho aqui um cartão meu, você me liga?, a gente tem que ser pelo menos amigo de facebook. Ele me deu o cartão, foi embora. Eu estou trabalhando, ninguém pode me ver fazendo isso. Com certeza um agente secreto.

Mandei mensagem, a esta altura eu já estava limpando uma mancha de mostarda da minha almofada nova. De manhã, entrei no site. Ele apresentava um programa que eu assistia, tem mil anos isso. Como eu sou tonta.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Eu sou um cliché da mulher de 30. É o que eu penso enquanto resolvo jantar só sobremesa. Sou um cliché da mulher de 30 atrapalhada protagonista de uma comédia romântica quando sujo meu cabelo todo de doce de leite. Talvez na próxima cena alguém sinta um cheiro doce, resolva investigar de onde vem e descubra que vem de mim. Só que eu não sou a protagonista atrapalhada de uma comédia romântica e no caminho para casa eu fico tensa reorganizando todos os meus planos porque agora a primeira coisa que eu vou fazer quando chegar em casa é tomar banho e não fazer bolinhos de arroz, agora só depois do banho eu vou fazer os bolinhos de arroz.

Você e eu e todos nós, os protagonistas clichés das nossas próprias vidas. Eu pensando em mim mesma enquanto compro leite fresco, a última das minhas frescuras, dos gastos que eu não preciso fazer mas faço, porque eu sou sozinha, acordo todos os dias às 6:30 então eu mereço leite com gosto de leite.

Você e eu e todos nós, comprando um livro do Caio Fernando Abreu, morrendo de medo de ser (mais) cliché. Protagonista da próxima cena cliché com uma vitrola, uma taça de vinho, meu robe florido. De que filme eu saí, que história eu estou contando?

Eu pensando que quero escrever sobre Lisboa, a única cidade depois de Paris que me deixou de coração apertado na hora de ir embora. A única cidade depois de Paris que eu deixei sabendo que ia voltar o quanto antes. Lisboa, a única cidade que eu digo pra todo mundo ir, só se pode amar Lisboa. Paris eu evito recomendar. Uma parte por ciúme, uma parte pra evitar o cliché. Mas eu vou chegar em casa, taça de vinho, meu robe florido e vou adiar mais uma vez escrever sobre Lisboa.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Love the only way I know how

Enquanto eu procuro em outro lugar o que eu sentia com você, fico tentando identificar o que era. A gente tentou não dar nome, você tentou, eu também, a gente tentou não dar nome, dizer que não tinha nome o que era tão nosso. Teve aquela vez em que você tentou usar a palavra empatia. Aliás, fuck you for that. Aquilo que não tinha nome. Um quase que não dava tempo de fechar a porta. Aquilo que era, mais do que tudo, uma urgência. Para mim, uma urgência.

Eu me pergunto se vou encontrar essa urgência de novo na vida. Talvez não. Pensar que ela talvez só exista com você é tão cruel, porque pra você eu nunca mais vou voltar, nada faz mais sentido do que isso. Mas talvez ela só exista com você. Nunca foi tão urgente querer alguém.

Um coração mergulhado no azul. O meu, como o seu.

You bring out the Mexican in me.
The hunkered thick dark spiral.
The core of a heart howl.
The bitter bile.
The tequila lágrimas on Saturday all
through next weekend Sunday.
You are the one I'd let go the other loves for,
surrender my one-woman house.
Allow you red wine in bed,
even with my vintage lace linens.
Maybe. Maybe.

For you.

do poema You Bring Out the Mexican in Me, Sandra Cisneros (minha poeta preferida)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Talvez eu tenha perdido o controle em algum momento, talvez eu tenha exagerado, não sei mesmo dizer o que houve, mas acontece que fiz as contas e há 17 tigelas na minha casa.

Continuo morando sozinha.

Bom, eu e as tigelas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

O meu dia começou com um helicóptero sobrevoando a minha casa porque um trem descarrilou bem em frente. Já pronta pra sair eu descobri que minha calça tinha não apenas um, mas dois rasgos e tinha que ser trocada por outra o mais rápido possível. Fechando a porta, notei que combinei a cor do blazer com a do batom com a do esmalte, argh. Não tinha trem pra ir pro trabalho. Também não tinha ônibus, porque todas as pessoas saíram enlouquecidas atrás de um. E então no meio do dia eu perdi meu cartão do banco e para pedir que outro chegue na minha casa e não na agência eu preciso ir até uma agência, como uma neandertal, como se eu vivesse no século XX. A assistência técnica me explicou, assim sem tremer a voz nem nada, que o técnico não veio consertar o ar condicionado  no dia inteiro que eu fiquei esperando porque não achou vaga para estacionar na minha rua. A secretária do médico ligou para adiar a consulta e riu da minha cara quando eu expliquei que moro em Nova Iguaçu e nem pensar que vou até Copacabana num sábado só porque meu joelho sai do lugar às vezes. Nenhum caixa eletrônico funcionava sem cartão. No ônibus, a pessoa do meu lado achou que era uma boa ideia comer um cachorro-quente.

E foi assim que no fim do dia eu me vi abraçada a uma abóbora no supermercado. Eu e a abóbora. Até que uma pessoa ficou fazendo psiu, psiu, psiu pra mim. Pra mim e para a abóbora. E quando eu virei, era uma funcionária me perguntando se eu queria que ela cortasse a abóbora pra mim.
-Ah, você corta abóboras?

De alguma forma a minha reação fez sentido para ela, talvez ela já tenha tido muitos dias ruins e saiba que cara a gente faz ao final deles. Ela delicadamente tirou a abóbora de mim e me devolveu apenas metade dela, o que impediu que eu viesse para casa abraçada a uma abóbora inteira, que era o meu não-plano de quem não está pensando em nada além de "preciso de uma sopa".

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Eu estava mostrando o perfil de um cara num app de paquerinha. Ele tinha umas fotos bem malucas. Na descrição, muitas palavras em inglês, tipo experimental, art, terror, post-punk, gender.

Eu estava defendendo o argumento de que no Rio todo mundo é artista.

-Olha, esse homem não é hétero. Ele apareceu pra você por engano.
-Não, que isso? Nós demos match em dois aplicativos diferentes.
-Você tá dizendo que deu like nesse homem?

Mas é claro que dei. Se eu não der like nesse homem, como é que eu vou conseguir continuar solteira?
...
Estou lendo um memoir sobre viver como uma mulher solteira. Chama Spinster, da Kate Bolick e eu recomendo pra todo mundo que pensa "hmm, ainda não." =)

domingo, 12 de abril de 2015

Estação de trem de Nova Iguaçu, domingo: mulher na plataforma em frente pega um cigarro e começa a procurar alguma coisa na bolsa.

Homem na mesma plataforma que eu pula da plataforma, atravessa os trilhos com um isqueiro entre os dentes, sobe na outra plataforma e acende o cigarro da moça.