domingo, 31 de agosto de 2014

Ainda no assunto banheiros em começo de relacionamento: tenho lavado meu cabelo com o que, obviamente, é um xampu deixado pela ex.

Não é da filha, que usa xampu infantil, não é dele, que não tem cabelo - e usa xampu anticaspa.

É o xampudaex. Tá lá no banheiro, eu usei, tem um restinho só.

Daí o que aconteceu: eu gostei tanto do xampudaex, ele foi tão bom pro meu cabelo, que eu fui lá e comprei igual e agora tem xampudaex no meu banheiro também.

Espero que ele não tenha memórias ruins ligadas a perfume de blueberry.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Fico pensando o que seria de nós, o que seria de mim, sem a capacidade de pensar "desta vez vai ser diferente." Nem levantava da cama, acho. Estou exagerando. Mas, sério,
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Li uma vez que a diferença entre um comportamento assustador e um comportamento fofo é o quanto a gente gosta da outra pessoa. Eu incluiria aí, além de assustador, ridículo/idiota. Mas isso é só pra justificar o meu coração quentinho com a cara que ele fez quando eu expliquei que, olha, o lugar pra onde eu quero ir já passou, eu só não queria largar a sua mão.
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Nada, nada mesmo faz sentido.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma certeza que você pode ter na primeira vez na casa de um homem: no chuveiro dele há um frasco de shampoo anticaspa. Você não sabe se ele arrumou a cama antes de sair de casa, se usa as mesmas toalhas de banho há anos, se não tem taças de vinho, se ele tem uma vitrola. Não importa: ele tem um shampoo anticaspa no banheiro.

Essa é uma certeza que eu carrego comigo há anos junto com o desespero de ir tomar banho num banheiro que não tem shampoo e condicionador adequados para o meu tipo de cabelo.  Queridos, eu preciso de hidratação.

É uma regra tão forte, mas tão forte que, entrando no banheiro de um homem careca, nos encontramos de novo. Lá estava ele, o shampoo anticaspa.

Não falha nunca.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

eu sei que dia é hoje

Eu achei que nunca aconteceria. Eu achei que ia explodir em mil pedaços bem pequenininhos. Eu achei que ia evaporar. Eu achei que ia derreter. Eu achei que ia virar pedra. Eu achei que nunca aconteceria. Eu achei que nunca mais te veria. Eu torci para te ver, eu torci para nunca acontecer, nunca mais.

Eu desejei que as suas samambaias secassem, que sua cerveja esquentasse, que sua caipirinha viesse sem açúcar. Quando eu passasse por você de cara alegre e cruel. Você nem ia me reconhecer. Já ia me encontrar refeita. Tantos homens etc. Eu achei que teria coisas a dizer. Eu achei que nunca aconteceria.

Eu olhei para você três vezes. Na primeira eu olhei para você e fugi pra um lugar dentro de mim onde só são repetidas as cenas que me explicam por que não, que me garantem que, não, eu não posso olhar para você. Eu olhei uma vez só e esperei você ir embora, sumir da minha frente de novo. Você ficou. Eu senti muito frio.

A segunda vez que eu olhei para você foi um acidente, eu achei que você não estava mais ali. Eu entendi errado o que me disseram. Eu olhei para você. Eu explodi em mil pedaços bem pequenininhos. Eu evaporei. Eu derreti. Eu virei pedra. A minha mão nunca mais tocou a sua.

Na última vez que eu olhei para você foi indo embora. Eu olhei para você pela última vez, repetindo que não e por que não. Eu sei por que não, soube tantas vezes e mesmo assim eu fiquei. Até que eu entendi que de você não consigo ter só um pouco. Você estava certo. Aquele sei-lá-o-quê-que-nos-aproxima, que eu desastradamente chamei de amor. Eu olhei para você.

Eu ouvi a sua voz e senti uma saudade infinita. Você nunca mais me abraçou.

sábado, 26 de julho de 2014

De: mim
Para: Nath
Sabe aquele cara que tava dando friozinho na barriga? Esquece, Nath. Ele acabou de mandar uma mensagem "não estou sendo honesto com você. eu sou canalha."

Bom, pelo menos dessa vez levou apenas quatro dias pra me contar que é canalha, geralmente leva mais tempo, né?

De: Nath
Para: mim
Mas mesmo assim não vale a pena investir, Nata? Às vezes a gente tá disposta a se meter em roubada mesmo, às vezes vale a pena.

De: mim
Para: Nath
Nath, tivemos a conversa mais maluca do mundo. Não entendi nada, mas disse pra ele parar de palhaçada, que a gente ia sair sim, porque agora quem vai partir o coração dele sou eu. Faço questão.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Eu, muito bocó, me achando grande coisa porque ouço Sepultura enquanto faço faxina, tinha certeza que era a pessoa mais moderna do meu predinho antigo sem elevador com janelas grandes e paredes grossas.

Daí tava subindo com os entregadores do sofá, passou um vizinho que eu não conhecia. Você que mora embaixo de mim? Bom, eu moro no 302. É embaixo de mim, sim, eu moro no 402. Oi, tudo bem, prazer, Renata. Eu sou o M.

Eu, a mais moderna do prédio onde só tem família, só posso ser eu. Meu vizinho de cima, um velhinho todo tatuado usando uma bolsa masculina.

Que boba. =)

sábado, 14 de junho de 2014

Outro dia eu estava no ponto de ônibus, veio um homem bêbado falar comigo. Falou coisas sem sentido, enrolando a língua e batendo na própria cabeça. Eu permaneci de pé, olhei para ele com uma cara muito séria e disse "não." Ele continuou falando coisas sem sentido e batendo na própria cabeça por um tempo, enquanto eu o ignorava olhando para o nada com uma cara muito séria, até ele se dirigir a outras pessoas que também estavam no ponto de ônibus.
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Há um tempo eu estava saindo com dois caras mais ou menos ao mesmo tempo. A gente estava bem no comecinho de qualquer coisa, eu com um e eu com o outro. Chegou um momento em que eu achei que tinha que escolher um dos dois e eu não escolhi o cara que disse que ia procurar minha marca preferida de pães-de-mel na viagem que ele faria, e sim escolhi o cara que me chamava de pedante e me fazia dar três pulinhos para São Longuinho quando encontrava algo que ele estava procurando, como o iPod perdido na casa dele que não tem televisão, como a minha.
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Quando o bêbado que falava coisas sem sentido, enrolando a língua e batendo na própria cabeça se aproximou do homem que esperava o ônibus comigo, o homem saiu andando, atravessou a rua, apressou o passo; o bêbado atrás dele, falando coisas sem sentido e batendo na própria cabeça.
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O que aconteceu foi que o cara que perguntava no que eu pensava quando eu sorria com o canto da boca sumiu. Ele sumiu depois que eu disse que tinha comprado um presente para ele, o que me fez achar que ele tinha ficado assustado. O presente era só um pote de massinha e mais tarde eu descobri que ele também estava saindo com duas mulheres ao mesmo tempo e escolheu a outra, não a mim.
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A perseguição do bêbado durou um certo tempo. Para mim, pareceu um tempo curto, numa cena ridícula, mas para o homem sendo perseguido deve ter parecido muito tempo. Finalmente o ônibus chegou, e o homem perseguido atravessou a rua de volta para o ponto.
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A outra mulher, a que foi escolhida, partiu o coração do cara que leu um texto que eu havia enviado para ele, um texto do qual eu mesma não havia lido nada além do título e por isso ele me chamou de cretina, e depois comentou comigo o texto todo, bom a outra mulher partiu o coração dele, então ele começou a tentar se reaproximar de mim.
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Enquanto eu observava a perseguição do bêbado com o homem apavorado, eu pensei em quantas vezes na minha vida eu bati o pé no chão e disse "não, você não vai fazer isso comigo" apenas porque eu achava que essa era a postura que eu devia ter diante da vida e das coisas que acontecem nela. Quantas vezes eu poderia simplesmente ter feito o que eu queria, que neste caso era atravessar a rua com medo, mas me forcei a ser forte e dura, sendo forte e dura comigo mesma.

O homem perseguido atravessou a rua rindo de si mesmo, daquela situação maluca acontecendo às nove horas de uma sexta-feira, balançando a cabeça. Ele entrou no mesmo ônibus que eu.